TERREMOTOS 1978
1-5 -quinta-feira, 4 de Setembro de 2003 - 78-09-24-ds> = dossiês do silêncio - terror atómico e terremotos> terça-feira, 30 de Abril de 2002: primeira revisão superficial, preciso de encontrar o original de onde foi scanado para uma revisão mais apurada
24-9-1978
MEDO ATÓMICO E TERREMOTOS
POR AFONSO CAUTELA
Carta à humanidade que escapar do genocídio
Escrevo esta carta aos portugueses e seres humanos que sobreviverem ao próximo ou próximos sismos causados pela próxima ou próximas explosões nucleares subterrâneas – no Nevada ou na Sibéria, nos Estados Unidos ou na URSS, vanguarda da humanidade economicamente e industrialmente desenvolvida. Principalmente, no crime perfeito.
A nossa vida de portugueses e de seres humanos, neste planeta, está por um fio e por minutos.
Morrer por morrer, tanto faz. Mas saber se foi a Natureza que nos assassinou ( como proclamam os assassinos dela e nossos ) ou se foi uma das Potências Nucleares, faz uma certa diferença a quem não gosta que lhe enfiem barretes.
Se for a Natureza, aceito e agradeço. Se for um cientista americano ou soviético de mau hálito e que sofra de hemorróidas, além de cérebro canceroso, recuso-me e conclamo todos os portugueses e todos os seres humanos – incluindo ratos e baleias – a preparar a grande marcha sobre os autores actuais do extermínio próximo futuro de um de nós: indivíduo, grupo, família, cidade, região, país.
Enquanto, explosão após explosão, prossegue calculada, fria e cientificamente o super-genocídio ou extermínio da raça humana – via sísmica induzida e produzida – eis que o comportamento interno das forças políticas ditas responsáveis, em cada país, é exemplar na cumplicidade às grandes centrais ou mafias a que, respectivamente, devem obediência. As internacionais do terror têm os seus agentes bem oleados em cada território chamado Nação, como se ainda houvesse Nações nesta Grande Pátria do Terror Tecno-Fascista Internacional.
Enquanto prossegue o genocídio programado e teleguiado, enquanto se firma e confirma a santa aliança das potências atómicas na guerra santa de extermínio contra a humanidade e tudo que mexe – ideal da bomba de neutrões – o povo português por exemplo, assiste divertido e algo constrangido – com uma cólica de exame no baixo estômago – através da TV, ao “combate de galos” – mais parecia uma chicana de peixeiras – entre os partidos intransigentemente anti-isto e anti-aquilo, uns que se dizem comunistas e outros que se dizem anti-comunistas, que é para a gente acreditar na rábula.
Isto no hemiciclo de S. Bento – a que está reduzido afinal o país – palco privilegiado das rábulas que importa representar para ilusão de óptica das massas; por que enquanto as peixeiras se esgatanham e arrancam os cabelos uma à outra, ao alto nível dos grandes blocos, os que se dizem pró-comunistas ou pró-soviéticos e os que se dizem anti-comunistas e pró-americanos, dão as mãos, fazem tratados, encostam joelhinho debaixo da mesa das negociações, intervigiam-se amavelmente nos respectivos desertos onde correm as respectivas experiências nucleares subterrâneas.
Internamente, os povos estão convencidos de que a grande dicotomia do nosso tempo é entre comunistas e anti-comunistas, Freitas do Amaral e Carlos de Brito, C.A.P. contra C.N.A. e por aí fora, sempre tudo muito alinhadinho para jogar o jogo que interessa. No xadrez repete-se a fita. Nas Olimpíadas a fita se repete. Nos festivais natatórios, idem, idem, aspas, aspas. Que bom haver sempre um Sporting-Benfica, para onde quer que a gente vai, quando há um lobo acima dos clubes que nos quer papar a todos, benfiquistas e sportinguistas.
O lobo atiça todo o inter-clubismo, no desporto ou nos hemiciclos: enquanto leva a efeito mais uma experiência com bomba, ao abrigo da coexistência pacífica.
Enquanto se promovia a guerra directa de extermínio ao povo vietnamita – e se convencia a humanidade que ali se decidia o futuro dela – prosseguiam, táctica e pacientemente, as experiências, as concordatas, as santas alianças, os programas conjuntos de coexistência pacífica, as Helsínquias, etc.
Com a ciência sempre a pairar – pomba branca, pomba branca – acima de tais e tantas misérias inter-bloco ou inter- partidos. Ciência, pátria imaculada comum de todos os assassinos da humanidade.
SEGREDO É A ALMA DO NEGÓCIO
Nesta guerra santa contra o género humano, a Informação desempenha um papel armado de importância.
Ou antes: a desinformação. Porque o SEGREDO é ingrediente fundamental na operação genocídio através da bomba subterrânea que provoca sismo. O SEGREDO é a chave do Negócio. O SEGREDO em que tais explosões decorrem foi combinado, ao mais alto nível, entre as potências interessadas.
Por isso, o controle da informação – que poderia eventualmente quebrar esse regime drástico de segredo – atinge neste campo dos desertos de bombas uma importância decisiva. A Imprensa pode escolher: ou servir o segredo e ser cúmplice dos 26 mil assassinatos que cada explosão provoca; ou badalar cá pra fora, a cada nova explosão sem esperar que venha o Prof. HEINZ KAMINSKI esganiçar-se todo a dizer que houve.
A julgar pelo que vemos na Imprensa doméstica, o comportamento parece-me exemplar.
Alinhada num dos lados da tal (falsa) antinomia, eis que o jogo todo se escamoteia e a toda a realidade se mistifica, atribuindo-se à querela propagandística entre imperialismos o que é pura e simplesmente a verdade dos factos.
Quando chega a hora dos factos – dizer quantos mortos fez a explosão no Nevada, ou quantos mortos fez a explosão na Sibéria – os órgãos de informação esquecem-se da notícia e nem o habitual pluralismo «pena de ouro» geme qualquer coisa prá gente saber. Que pena de ouro!
Afinal, não é importante. Desporto sim, ciclismo sim, touradas sim, chicana partidária sim, o mictório inaugurado (isso era dantes, agora nem mijadoiros), sim. Perante a transcendência factual destas e doutras realidades, que diabo ou que raio é o genocídio humano?
Ao fim e ao cabo, não é nada que nos diga respeito. Em vez de seres humanos, estamos categorizados a qualquer destas promoções: consumidor, eleitor, munícipe, peão, CONTRIBUINTE, sócio do clube. Que importa a categoria de ser humano, elemento de uma coisa chamada humanidade que povoa uma coisa chamada Planeta?
Enquanto os jornais classificam de grave, muito grave, gravíssima a situação interna portuguesa – o que até parece que não é mentira - eis que a ocasião é óptima, a malta está absorvida na crise, distraída a ver os partidos degladiar-se, assistindo ao intérmino Sporting-Benfica, quer lá saber de mais uma explosão subterrânea, na Sibéria ou no Nevada.
Apesar de super ocupada na crónica doméstica, porém, a informação portuguesa fez, desta feita, transpirar uma mini-notícia, «detonador» do alerta.
Tudo foi, logo, mais ou menos aldrabado e mistificado, mas algo transpirou e lá andou o eco-cocabichinhos à procura das peças soltas a ver se reconstituía o «puzzle» desta brincadeira.
Segunda feira, dia 18 de setembro de 1978, os jornais noticiavam, após o descanso dominical, o sismo de Sábado no Irão.
Condolências, drama, carpideiras, a Madrasta Natureza sempre a fazer das suas, etc.
Tudo se preparava, portanto, para entrar na rotina da fatalidade em que as grandes potências e seus científicos cérebros conservam de vinha de alhos a consciência humana.
A 20 de setembro, Quarta feira, escapuliu-se, via ANOP, uma incómoda notícia, logo metida na gaveta pelos progressistas, logo mal e porcamente anunciada pelos regressistas: o prof. HEINZ KAMINSKI, da RFA, teria atribuído o sismo no Irão à explosão nuclear subterrânea da URSS, na Sibéria, 36 horas antes.
Mas como: então houvera explosão e a malta não soubera de tão gloriosa efeméride? Como assim? Como é que os telex não rangeram de contentamento? Quando um satélite sobe à estratosfera não é logo uma gritaria dos demónios anunciando a gloriosa ascensão aos céus? Como assim, uma subterrânea não merece idênticas e telúricas honras de anúncio multimundial?
No dia seguinte, 21 de setembro, quando eu esperava a imprensa pró-soviética enfeitada com coroa de loiros e embandeirando em arco, eis que o «Diário» (????) de cena carregado , todo se alcachofrava com a «calúnia» atribuída – claro – a uma má digestão federal alemã do prof. KAMINSKI e, claro, à sempre insidiosa, incansável propaganda imperialista ianque que grassa, com tanta graça, na nossa Imprensa pluralista.
A meio da tarde desse dia 21, a Rádio a manda com uma segunda bomba (não subterrânea mas hertziana): dizia a Rádio que o Observatório Sismológico de Upsala (Upa, upa) « iliba » os soviéticos de Novosibirski de qualquer culpa neste cartório dos 26 mil mortos, porque não havia nenhuma relação científica comprovada entre a explosão e o sismo.
PODOR DE DONZELA OU MEDO DE COBARDE
Se houvesse, é que era caso para admirar.
A rádio deu, a 21, a notícia, o vento a levou e , no outro dia, 22, mesmo ao dealbar do equinócio com trovoadas locais, viu-se o coca-bichinhos do ecologista grego para encontrar, na prestimosa informação pluralista, raspas da tão insignificante notícia, que ainda por cima vinha desmentir uma não menos insignificante calúnia.
Tão pouco «O Diário», que na véspera tanto se alcachofrara com os veiculadores de tão torpe calúnia, gastou tinta com a de Upsala, nem veio congratular-se com os amiguinhos que dali, Suécia, ilibavam a URSS deste crime de genocídio.
É que a Suécia não tem falhas sísmicas...
Pode à vontade deixar que expludam bombas na Sibéria.
Mas, com tão ilustre advogado de defesa, «O Diário» calou-se. Pura e simplesmente. É a informação que merecemos, a verdade a que temos direito. Sempre, sempre ao lado do povo.
No fundo, o que ao coca-bichinhos do Ecologista interessava saber, era se tinha havido explosão, para mandar um cartão de felicitações aos autores da proeza.
Ora HOUVE explosão. E é aqui que tudo começa. Quer dizer, que tudo acaba. Para os 26 mil mortos, pelo menos. Um turbilhão de perguntas saem daí.
Porque não sabe a humanidade de cada explosão semanal realizada? Porque se esconde o que é uma glória da potência atómica? Pudor ou medo? Modéstia ou neutralidade científica? Porque se receia dizer ao eleitorado mundial quantas vezes explode bomba no Nevada e quantas vezes explode bomba na Sibéria?
Porquê? Porquê?Porquê?
Porque o sismo, esse, será necessariamente noticiado, com as lágrimas de crocodilo do costume.
Explosão é que não, com 30 mil diabos radioactivos!
Clara que não há qualquer relação, cientificamente demonstrada, entre a explosão e o sismo.
Posso enviar fotocópia da página do «Diário Popular» - a mesma página e não há truque de fotomontagem- com data de 28 de julho de 1976, onde vem a notícia do sismo na China (650 mil mortos), minutos depois da explosão no Nevada.
A quem mandar selos, posso enviar fotocópias desta e de outras notícias – coincidência – em que breves minutos ou horas, separam a explosão do sismo.
Isto – atenção – no tempo em que as explosões ainda eram, mal mas intermitentemente, noticiadas.
Hoje, um tratado entre a URSS e EUA prevê silêncio e segredo total para que a santa guerra da santa aliança atômica prossiga – via sísmica – chacinando a espécie humana.
Mas – claro! – a ciência não provou nada e portanto, não há relação nenhuma. Pode, pois, continuar matando. Esperemos que um dia a ciência diga que e quantos e como e porquê vai matando.
Nada está provado pela ciência. Pois não.
Mas há dezenas de notícias – eu tenho-as em cofre – em que a uma explosão se segue um sismo. E mais haveria se as explosões não fossem, como são abafadas no noticiário internacional. Pago para noticiar.
Os eminentes cientistas de Upsala vieram desculpar a pobre potência atómica, mas não diriam nada – esses compinchas – de que houvera a explosão-experiência, se o Heinz Kaminski não tivesse levantado a lebre.
Portugueses e seres humanos, devemos constatar a informação a que temos direito. É ESTA.
Talvez, por caridade cristã, seja dever do jornalista não dar mais desgostos e traumas ao género humano, mostrando-lhe sempre os factos e de que maneira o TECNO-TERROR do fascismo nuclear das imponentes prepotências nos vai tratando, seres humanos, da saúde e da pele.
Para não alarmar, convém calar, escamotear, contra-informar.
É contra-informação a que temos direito.
A CIÊNCIA A QUE TEMOS DIREITO
É a ciência que reverenciamos.
Quem, senão eles, devotos tecnocratas competentes de Upsala, de Novosibirski, do M.I.T., quem, senão eles, acima de toda a suspeita, e no mais lavado espírito de Helsínquia – desanuviai, desanuviai, e alguma coisa há-de ficar... – para nos virem dizer o que a ciência prova ou comprova.
A ciência é que sabe, a ciência é a religião dos cancerosos de espírito, a ciência é sacrossanta, a ciência, neutral como uma bomba de NEUTRÕES, está acima dos blocos e chicanas, acima das lutas dos hemiciclos entre os deputados do P.C. e do C.D.S..
Como a de neutrões, a ciência só mata seres humanos. Só mata a vida. O resto, bens, fazendas, cientistas, tecnocratas e bombocratas, deixa-os ilesos. A ciência só é afinal responsável pelo genocídio.
Que raio de importância tem isso?
Espécie de tribunal de suprema instância, eis que na ciência a humanidade pode tranquilizar a consciência, um tanto tremelíques à causa dos sismos (já lá vão quatrocentos só em 1978), enquanto parcelinhas dela – 130 mil ontem na China, 26000 hoje no Irão, 20000 anteontem em Manágua- vai indo alegremente para o galheiro, solucionando-se assim a explosão demográfica. Os Paul Erlich desta reincarnação, darão uivos de contentamento neo-maltusiano.
A Ciência assevera, assegura, fala verdade, e a verdade é só uma.
A Ciência é a verdade a que temos direito.
Desde que bem aplicada, neutral ou neutronicamente aplicada, nunca foi nem será jamais prejudicial ao Capital, à Mercadoria, à Fazenda.
A Ciência do observatório de Upsala, acima de toda a suspeita, é claro que não está paga pelas grandes potências atómicas para as ilibar de culpas no cartório nuclear, nos próximos terramotos na China, da Manágua, do Irão ou de Lisboa, causados por explosões subterrâneas no Nevada ou na Sibéria.
Seres humanos de todo o mundo, uni-vos. Só tendes a perder uma trave de cimento em cima da tola ao próximo e primeiro sismo.
Vejo a humanidade (pelo menos a das falhas sísmicas que a ciência tão bem conhece) encaminhando-se, como um dócil rebanho para o matadouro, científica, experimental, matemática e absolutamente certa de que vai para o Paraíso e que foi a Natureza que a matou.
E não as potências atómicas com suas experiências a bem do progresso humano.
Com um sorriso nos lábios, vejo a humanidade, apesar da fome, da inflação, feliz subindo para os anjinhos, agradecida à ciência que tanto lhe deu, incluindo a liberdade e o paraíso...«Aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando...» Vejo a humanidade a quem escrevo esta carta de amor
-fim-
AFONSO CAUTELA, 24.09.78
24-9-1978
MEDO ATÓMICO E TERREMOTOS
POR AFONSO CAUTELA
Carta à humanidade que escapar do genocídio
Escrevo esta carta aos portugueses e seres humanos que sobreviverem ao próximo ou próximos sismos causados pela próxima ou próximas explosões nucleares subterrâneas – no Nevada ou na Sibéria, nos Estados Unidos ou na URSS, vanguarda da humanidade economicamente e industrialmente desenvolvida. Principalmente, no crime perfeito.
A nossa vida de portugueses e de seres humanos, neste planeta, está por um fio e por minutos.
Morrer por morrer, tanto faz. Mas saber se foi a Natureza que nos assassinou ( como proclamam os assassinos dela e nossos ) ou se foi uma das Potências Nucleares, faz uma certa diferença a quem não gosta que lhe enfiem barretes.
Se for a Natureza, aceito e agradeço. Se for um cientista americano ou soviético de mau hálito e que sofra de hemorróidas, além de cérebro canceroso, recuso-me e conclamo todos os portugueses e todos os seres humanos – incluindo ratos e baleias – a preparar a grande marcha sobre os autores actuais do extermínio próximo futuro de um de nós: indivíduo, grupo, família, cidade, região, país.
Enquanto, explosão após explosão, prossegue calculada, fria e cientificamente o super-genocídio ou extermínio da raça humana – via sísmica induzida e produzida – eis que o comportamento interno das forças políticas ditas responsáveis, em cada país, é exemplar na cumplicidade às grandes centrais ou mafias a que, respectivamente, devem obediência. As internacionais do terror têm os seus agentes bem oleados em cada território chamado Nação, como se ainda houvesse Nações nesta Grande Pátria do Terror Tecno-Fascista Internacional.
Enquanto prossegue o genocídio programado e teleguiado, enquanto se firma e confirma a santa aliança das potências atómicas na guerra santa de extermínio contra a humanidade e tudo que mexe – ideal da bomba de neutrões – o povo português por exemplo, assiste divertido e algo constrangido – com uma cólica de exame no baixo estômago – através da TV, ao “combate de galos” – mais parecia uma chicana de peixeiras – entre os partidos intransigentemente anti-isto e anti-aquilo, uns que se dizem comunistas e outros que se dizem anti-comunistas, que é para a gente acreditar na rábula.
Isto no hemiciclo de S. Bento – a que está reduzido afinal o país – palco privilegiado das rábulas que importa representar para ilusão de óptica das massas; por que enquanto as peixeiras se esgatanham e arrancam os cabelos uma à outra, ao alto nível dos grandes blocos, os que se dizem pró-comunistas ou pró-soviéticos e os que se dizem anti-comunistas e pró-americanos, dão as mãos, fazem tratados, encostam joelhinho debaixo da mesa das negociações, intervigiam-se amavelmente nos respectivos desertos onde correm as respectivas experiências nucleares subterrâneas.
Internamente, os povos estão convencidos de que a grande dicotomia do nosso tempo é entre comunistas e anti-comunistas, Freitas do Amaral e Carlos de Brito, C.A.P. contra C.N.A. e por aí fora, sempre tudo muito alinhadinho para jogar o jogo que interessa. No xadrez repete-se a fita. Nas Olimpíadas a fita se repete. Nos festivais natatórios, idem, idem, aspas, aspas. Que bom haver sempre um Sporting-Benfica, para onde quer que a gente vai, quando há um lobo acima dos clubes que nos quer papar a todos, benfiquistas e sportinguistas.
O lobo atiça todo o inter-clubismo, no desporto ou nos hemiciclos: enquanto leva a efeito mais uma experiência com bomba, ao abrigo da coexistência pacífica.
Enquanto se promovia a guerra directa de extermínio ao povo vietnamita – e se convencia a humanidade que ali se decidia o futuro dela – prosseguiam, táctica e pacientemente, as experiências, as concordatas, as santas alianças, os programas conjuntos de coexistência pacífica, as Helsínquias, etc.
Com a ciência sempre a pairar – pomba branca, pomba branca – acima de tais e tantas misérias inter-bloco ou inter- partidos. Ciência, pátria imaculada comum de todos os assassinos da humanidade.
SEGREDO É A ALMA DO NEGÓCIO
Nesta guerra santa contra o género humano, a Informação desempenha um papel armado de importância.
Ou antes: a desinformação. Porque o SEGREDO é ingrediente fundamental na operação genocídio através da bomba subterrânea que provoca sismo. O SEGREDO é a chave do Negócio. O SEGREDO em que tais explosões decorrem foi combinado, ao mais alto nível, entre as potências interessadas.
Por isso, o controle da informação – que poderia eventualmente quebrar esse regime drástico de segredo – atinge neste campo dos desertos de bombas uma importância decisiva. A Imprensa pode escolher: ou servir o segredo e ser cúmplice dos 26 mil assassinatos que cada explosão provoca; ou badalar cá pra fora, a cada nova explosão sem esperar que venha o Prof. HEINZ KAMINSKI esganiçar-se todo a dizer que houve.
A julgar pelo que vemos na Imprensa doméstica, o comportamento parece-me exemplar.
Alinhada num dos lados da tal (falsa) antinomia, eis que o jogo todo se escamoteia e a toda a realidade se mistifica, atribuindo-se à querela propagandística entre imperialismos o que é pura e simplesmente a verdade dos factos.
Quando chega a hora dos factos – dizer quantos mortos fez a explosão no Nevada, ou quantos mortos fez a explosão na Sibéria – os órgãos de informação esquecem-se da notícia e nem o habitual pluralismo «pena de ouro» geme qualquer coisa prá gente saber. Que pena de ouro!
Afinal, não é importante. Desporto sim, ciclismo sim, touradas sim, chicana partidária sim, o mictório inaugurado (isso era dantes, agora nem mijadoiros), sim. Perante a transcendência factual destas e doutras realidades, que diabo ou que raio é o genocídio humano?
Ao fim e ao cabo, não é nada que nos diga respeito. Em vez de seres humanos, estamos categorizados a qualquer destas promoções: consumidor, eleitor, munícipe, peão, CONTRIBUINTE, sócio do clube. Que importa a categoria de ser humano, elemento de uma coisa chamada humanidade que povoa uma coisa chamada Planeta?
Enquanto os jornais classificam de grave, muito grave, gravíssima a situação interna portuguesa – o que até parece que não é mentira - eis que a ocasião é óptima, a malta está absorvida na crise, distraída a ver os partidos degladiar-se, assistindo ao intérmino Sporting-Benfica, quer lá saber de mais uma explosão subterrânea, na Sibéria ou no Nevada.
Apesar de super ocupada na crónica doméstica, porém, a informação portuguesa fez, desta feita, transpirar uma mini-notícia, «detonador» do alerta.
Tudo foi, logo, mais ou menos aldrabado e mistificado, mas algo transpirou e lá andou o eco-cocabichinhos à procura das peças soltas a ver se reconstituía o «puzzle» desta brincadeira.
Segunda feira, dia 18 de setembro de 1978, os jornais noticiavam, após o descanso dominical, o sismo de Sábado no Irão.
Condolências, drama, carpideiras, a Madrasta Natureza sempre a fazer das suas, etc.
Tudo se preparava, portanto, para entrar na rotina da fatalidade em que as grandes potências e seus científicos cérebros conservam de vinha de alhos a consciência humana.
A 20 de setembro, Quarta feira, escapuliu-se, via ANOP, uma incómoda notícia, logo metida na gaveta pelos progressistas, logo mal e porcamente anunciada pelos regressistas: o prof. HEINZ KAMINSKI, da RFA, teria atribuído o sismo no Irão à explosão nuclear subterrânea da URSS, na Sibéria, 36 horas antes.
Mas como: então houvera explosão e a malta não soubera de tão gloriosa efeméride? Como assim? Como é que os telex não rangeram de contentamento? Quando um satélite sobe à estratosfera não é logo uma gritaria dos demónios anunciando a gloriosa ascensão aos céus? Como assim, uma subterrânea não merece idênticas e telúricas honras de anúncio multimundial?
No dia seguinte, 21 de setembro, quando eu esperava a imprensa pró-soviética enfeitada com coroa de loiros e embandeirando em arco, eis que o «Diário» (????) de cena carregado , todo se alcachofrava com a «calúnia» atribuída – claro – a uma má digestão federal alemã do prof. KAMINSKI e, claro, à sempre insidiosa, incansável propaganda imperialista ianque que grassa, com tanta graça, na nossa Imprensa pluralista.
A meio da tarde desse dia 21, a Rádio a manda com uma segunda bomba (não subterrânea mas hertziana): dizia a Rádio que o Observatório Sismológico de Upsala (Upa, upa) « iliba » os soviéticos de Novosibirski de qualquer culpa neste cartório dos 26 mil mortos, porque não havia nenhuma relação científica comprovada entre a explosão e o sismo.
PODOR DE DONZELA OU MEDO DE COBARDE
Se houvesse, é que era caso para admirar.
A rádio deu, a 21, a notícia, o vento a levou e , no outro dia, 22, mesmo ao dealbar do equinócio com trovoadas locais, viu-se o coca-bichinhos do ecologista grego para encontrar, na prestimosa informação pluralista, raspas da tão insignificante notícia, que ainda por cima vinha desmentir uma não menos insignificante calúnia.
Tão pouco «O Diário», que na véspera tanto se alcachofrara com os veiculadores de tão torpe calúnia, gastou tinta com a de Upsala, nem veio congratular-se com os amiguinhos que dali, Suécia, ilibavam a URSS deste crime de genocídio.
É que a Suécia não tem falhas sísmicas...
Pode à vontade deixar que expludam bombas na Sibéria.
Mas, com tão ilustre advogado de defesa, «O Diário» calou-se. Pura e simplesmente. É a informação que merecemos, a verdade a que temos direito. Sempre, sempre ao lado do povo.
No fundo, o que ao coca-bichinhos do Ecologista interessava saber, era se tinha havido explosão, para mandar um cartão de felicitações aos autores da proeza.
Ora HOUVE explosão. E é aqui que tudo começa. Quer dizer, que tudo acaba. Para os 26 mil mortos, pelo menos. Um turbilhão de perguntas saem daí.
Porque não sabe a humanidade de cada explosão semanal realizada? Porque se esconde o que é uma glória da potência atómica? Pudor ou medo? Modéstia ou neutralidade científica? Porque se receia dizer ao eleitorado mundial quantas vezes explode bomba no Nevada e quantas vezes explode bomba na Sibéria?
Porquê? Porquê?Porquê?
Porque o sismo, esse, será necessariamente noticiado, com as lágrimas de crocodilo do costume.
Explosão é que não, com 30 mil diabos radioactivos!
Clara que não há qualquer relação, cientificamente demonstrada, entre a explosão e o sismo.
Posso enviar fotocópia da página do «Diário Popular» - a mesma página e não há truque de fotomontagem- com data de 28 de julho de 1976, onde vem a notícia do sismo na China (650 mil mortos), minutos depois da explosão no Nevada.
A quem mandar selos, posso enviar fotocópias desta e de outras notícias – coincidência – em que breves minutos ou horas, separam a explosão do sismo.
Isto – atenção – no tempo em que as explosões ainda eram, mal mas intermitentemente, noticiadas.
Hoje, um tratado entre a URSS e EUA prevê silêncio e segredo total para que a santa guerra da santa aliança atômica prossiga – via sísmica – chacinando a espécie humana.
Mas – claro! – a ciência não provou nada e portanto, não há relação nenhuma. Pode, pois, continuar matando. Esperemos que um dia a ciência diga que e quantos e como e porquê vai matando.
Nada está provado pela ciência. Pois não.
Mas há dezenas de notícias – eu tenho-as em cofre – em que a uma explosão se segue um sismo. E mais haveria se as explosões não fossem, como são abafadas no noticiário internacional. Pago para noticiar.
Os eminentes cientistas de Upsala vieram desculpar a pobre potência atómica, mas não diriam nada – esses compinchas – de que houvera a explosão-experiência, se o Heinz Kaminski não tivesse levantado a lebre.
Portugueses e seres humanos, devemos constatar a informação a que temos direito. É ESTA.
Talvez, por caridade cristã, seja dever do jornalista não dar mais desgostos e traumas ao género humano, mostrando-lhe sempre os factos e de que maneira o TECNO-TERROR do fascismo nuclear das imponentes prepotências nos vai tratando, seres humanos, da saúde e da pele.
Para não alarmar, convém calar, escamotear, contra-informar.
É contra-informação a que temos direito.
A CIÊNCIA A QUE TEMOS DIREITO
É a ciência que reverenciamos.
Quem, senão eles, devotos tecnocratas competentes de Upsala, de Novosibirski, do M.I.T., quem, senão eles, acima de toda a suspeita, e no mais lavado espírito de Helsínquia – desanuviai, desanuviai, e alguma coisa há-de ficar... – para nos virem dizer o que a ciência prova ou comprova.
A ciência é que sabe, a ciência é a religião dos cancerosos de espírito, a ciência é sacrossanta, a ciência, neutral como uma bomba de NEUTRÕES, está acima dos blocos e chicanas, acima das lutas dos hemiciclos entre os deputados do P.C. e do C.D.S..
Como a de neutrões, a ciência só mata seres humanos. Só mata a vida. O resto, bens, fazendas, cientistas, tecnocratas e bombocratas, deixa-os ilesos. A ciência só é afinal responsável pelo genocídio.
Que raio de importância tem isso?
Espécie de tribunal de suprema instância, eis que na ciência a humanidade pode tranquilizar a consciência, um tanto tremelíques à causa dos sismos (já lá vão quatrocentos só em 1978), enquanto parcelinhas dela – 130 mil ontem na China, 26000 hoje no Irão, 20000 anteontem em Manágua- vai indo alegremente para o galheiro, solucionando-se assim a explosão demográfica. Os Paul Erlich desta reincarnação, darão uivos de contentamento neo-maltusiano.
A Ciência assevera, assegura, fala verdade, e a verdade é só uma.
A Ciência é a verdade a que temos direito.
Desde que bem aplicada, neutral ou neutronicamente aplicada, nunca foi nem será jamais prejudicial ao Capital, à Mercadoria, à Fazenda.
A Ciência do observatório de Upsala, acima de toda a suspeita, é claro que não está paga pelas grandes potências atómicas para as ilibar de culpas no cartório nuclear, nos próximos terramotos na China, da Manágua, do Irão ou de Lisboa, causados por explosões subterrâneas no Nevada ou na Sibéria.
Seres humanos de todo o mundo, uni-vos. Só tendes a perder uma trave de cimento em cima da tola ao próximo e primeiro sismo.
Vejo a humanidade (pelo menos a das falhas sísmicas que a ciência tão bem conhece) encaminhando-se, como um dócil rebanho para o matadouro, científica, experimental, matemática e absolutamente certa de que vai para o Paraíso e que foi a Natureza que a matou.
E não as potências atómicas com suas experiências a bem do progresso humano.
Com um sorriso nos lábios, vejo a humanidade, apesar da fome, da inflação, feliz subindo para os anjinhos, agradecida à ciência que tanto lhe deu, incluindo a liberdade e o paraíso...«Aqueles que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando...» Vejo a humanidade a quem escrevo esta carta de amor
-fim-
AFONSO CAUTELA, 24.09.78

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